LEITURA anotada

 Texto de  OCTÁVIO SANTOS

 

 

Projecto de posfácio  dirigido a leitores menos atentos desta

história maravilhosa para todas as idades

 

 

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa

quando, por uma simples sucessão de acasos

Abri o livro na altura em que o Anjo me sorria

Tal como o velho Anders jurava a pés juntos ter visto o jovem Elvis a descer a rua da sua cidadezinha de mãos dadas com um urso, também eu posso afirmar que acabei de ver um filme em technicolor,  não em três mas em quatro dimensões, mesmo sabendo que tal não corresponde à verdade mas ao sonho

um sonho que em cor me afogue

também ele em quatro dimensões que se reduzem a uma só: a do amor, aqui expresso em pura poesia

e essa fome sem remédio a que se chama poesia

Primeira dimensão: O amor e o respeito entre os humanos, com as suas posições bem marcadas e segundo (seguindo) o ciclo natural da vida (e da morte).

Segunda dimensão: O amor pela natureza, pródiga em beleza na Terra e na cúpula celeste.

Terceira dimensão: O amor pelos animais, atribuindo a cada um a sua função essencial, na natureza, nos nossos corações ou na nossa mesa.

Do amor das galinhas, dos gatos e dos cães, e de toda a espécie de bichos

Quarta dimensão: O amor pela Pátria, o respeito pelos seus símbolos e o orgulho nos seus feitos.

Chama-se AMOR, simplesmente

As cores

Saindo do sonho e regressando ao livro, a primeira coisa que me ocorre é que, apesar da cor ser reservada à capa e contra-capa, encontrei entre elas não um livro a preto e branco, mas um daqueles livros de colorir que a Avó Nela compra para o André e para o Bernardo, com tantas cores e matizes

Uns outros descobrem cores do mais formoso matiz

que se torna necessária uma paleta infinita de tons para dar vida às suas páginas, nas quais um simples objecto se pode tornar belo se tiver qualquer coisa, qualquer sinal nem que seja uma pinta pintada de uma cor alegre…

O dourado para os cabelos dos protagonistas, o lago pintado pelo reflexo da Aurora, as nuvens, o pêlo das renas, a luz do Sol, as três coroas da Suécia, as esculturas do Vasa.

São sonhos pintados de purpurina.

O prateado para as trutas.

Tinha oiro e prata

 O azul para o celeste do céu, uma nova cor sem cor, irreconhecível,  as fitas de fumo e  as névoas azuladas, as noites, as madrugadas, alguns dias, vestidos, saias e jaquetas, os olhos de Agnetta, doces olhos azuis na direcção dos olhos azuis de Elvis , as sereias, o lago e a sua espuma, a bandeira nacional.

Desfez-se em azuis rosados, tinturas de tornesol

O laranja para as luzes que filtram do interior das casas.

O branco para Kiruna, os pássaros e as suas asas, as nuvens, o céu, as noites, a lua –  por detrás deste branco branco, existe o negro negro que nós nunca conheceremos -, o bufo Grande, as perdizes, as ruas e estradas com neve, a pele de Agnetta.

Com lírios brancos do monte pintei-te a pele do rosto

 O roxo para  bem aventuradas luzes da Aurora, para bagas e amoras, para o crepúsculo.

O verde para os olhos do gato, a copa das árvores, o ar, as trevas, o bosque, as luzes do Norte, vestidos e saias, os musgos esverdeados.

verdes e azuis de Renoir, amarelos de Van Gogh

O amarelo para o clarão amarelado do céu, o debrum das saias, a cruz da bandeira, os cabelos de Agnetta.

O amarelo do piorno deu-me o tom dos teus cabelos

 O pardo (que coisa é o pardo: cor de burro quando foge ?)  para a aragem  (que coisa é a aragem: é o ar a agir ?).

O negro para o fundo das águas, o rio após o incêndio, transformado num leito espesso e negro, cabelos, calças e botas, nódoas no corpo frágil de Elvis, as árvores do bosque, as sombras sem sol.

Os olhos fundos do meu pensamento são negros como o alcatrão,

 O castanho para o gato,  corpos mal distintos ao longe, o urso, outros cabelos.

O vermelho para vestidos e saias, corais avermelhados, luzes do céu cor de fogo, os cabelos fulvos de Fred e dos seus patrícios de Falun, a terra onde o cobre abunda.

Inflorescências de cobre de longos cabelos ruivos

O cinzento para o lago de aço, os olhos de Anders, olhitos cinzentos na direcção dos grandes olhos azuis de Elvis, a atmosfera, as fumarolas saídas da terra após o fogo.

Como um esqueleto incorrupto coberto de pó cinzento

 Muito mais cores são precisas para as Auroras, línguas de luzes de todas as cores que surgem como relâmpagos …lufada de cores… que se estende em espirais e pinta de alegria a vida com o seu colorido inimaginável, as sereias das oníricas memórias de Anders – as escamas eram camadas de madrepérola dos mais incríveis matizes -, as quinhentas estátuas de madeira polícroma do Vasa.

orquídeas de furta-cores

 

É tela, é cor, é pincel,

 Os bichos

Colorido que foi o livro, folheei-o para o rever  e deparei com aquilo que é próprio a todas as narrativas: paisagens – campos, florestas, rios, mar, ruas, casas -, pessoas, animais, animais, animais.  Só então me dei conta que para além das cores que tanto divertiram quem o leu/pintou, não menos importante foi a visita guiada ao animalarium que povoa a poesia em prosa que entroniza o gato, fazendo-lhe de moldura neste zoo primordial onde cada um tem o seu papel e função, por vezes mista, ligada ao mundo dos humanos – animais de estimação e de cria –, à natureza, no reino inesperado  do  bosque onde  só os animais e  as plantas e as grandes árvores vivem,  ou de todo livres e independentes.

No centro do cenário o gato sem nome e o actor secundário, mas não menos importante, bufo Grande, são os únicos com uma função social precisa, já que membros da família, ambos prenunciadores dos eventos marcantes da vida da mesma;  o gato, âncora que os prendeu a Uppsala afastando-os de uma provável e prematura morte, o bufo, atento ministro e grande e branco pássaro,  apontador  de tudo e denunciante de alterações às normas regentes.

Espreita as pegadas da morte,

Outro gato é citado na história, aquele do Vasa que, falhada companhia de viagem para o gato da Agnetta, foi encontrado esqueleto em 1961, 333 anos depois do naufrágio. Número de morte, ressurreição e ascensão.

Aves como o Grande há muitas, até um seu igual comido pelo Elvis para aliviar a fome.

e o grande pássaro branco

Pássaros que nascem e renascem e abundam, são milhares, milhões, milhares de milhões.

Chapins que piam inquietos, rouxinóis – pássaros a cantar à noite, corvos aos casais, mochos e corujas cujo lamento se ouve ao longe, perdizes brancas de Kiruna, grandes gansos, galinhas a encher as capoeiras de ovos, e até dois grifos, aves míticas que seguram a coroa da amada pátria.

como  estas aves que gritam em bebedeiras de azul.

Na terra, animais de pêlo, úteis como a rena, companheira, trabalhadora e alimento, coelhos, lebres, esquilos, todos eles papados depois de caçados e assados, lobos, raposas, castores, ratos, doninhas, toupeiras, milhares e milhares de bichinhos pequenos com a sua tão precisa como preciosa função no equilíbrio da natureza, e o urso tutelar plantado nos membros posteriores, objecto sacro de proezas de amor, fantasma materializado das visões do velho Anders.  Estranho que os cães não tenham lugar nesta história,. Como se o profundo amor pelo gato retirasse o espaço que compete ao melhor amigo do homem (temo que a autora não esteja de acordo), o qual é citado apenas duas vezes: uma  para comparar a sua fidelidade com aquela do gato, obviamente superior, a outra para pôr os homens que não contam a comer na sua gamela.  No mesmo caso está  a cobra que vê comparado o seu corpo silencioso com o  do   “meu gatinho” quando se afasta sorrateiro e se enfia numa toca à caça. Outras bichezas desfilam nas páginas do livrinho, como sejam rãs acabadinhas de apanhar, uma lagartixa a escapar às garras do gato, centenas de lagostins, delicioso petisco saboreado à beira do riacho.  Mesmo as bichas que provocaram as cólicas de Elvis, aliviadas com a fedorenta tisana, herança de Eloísa, que acabava com todos os vermes do nosso corpo, são, elas mesmo, seres vivos e, sabe Deus se necessários.  Por último os peixes,

em filas, peixinhos de cores amáveis

com as trutas à cabeça, vinte delas ali alinhadas na margem do rio, sujeito de longínqua mas não esquecida prova de amor, salmões, arenques, peixes grandes e pequenos, centenas de peixes que voavam nadando mesmo por debaixo de mim, que nas águas convivem com seres muito estranhos que viviam no mar, entre todos as sereias, lindíssimas mulheres-peixe à espera da salvação que lhes concedesse a plenitude da sua condição humana, com os seus cintos de conchas, de búzios, de pérolas, de corais avermelhados.

onde as sereias de espuma ?   E os monstros cor de ferrugem

Pobres animais que, mesmo  amados, acabarão no nosso prato em forma de carne assada ou em bola, ovos, peixe fumado ou às postas, pasta de fígado de galo e salsichas. 

girafa trufada, rissóis de serpente.

Pobres e indefesos animais que, aflitos e desorientados, e não conseguindo fugir ao grande fogo na floresta, espalharam um assustador cheiro a queimado, a pêlos e peles queimadas..  que… cobriu toda a região.

Corpo que a arder arrefece

Tive pena de não vislumbrar um único insecto, classe que nos substituirá no domínio do planeta azul, quando deixe de haver pessoas, o que pode acontecer, mas apenas uma alusão comparativa: poderia ver e sentir um formigueiro de gente dentro do navio.

Um formigueiro se agita, 

A poesia

Iluminado o livro e visitado o bestiário, abramos os olhos à poesia, não àquela alusiva aos temas já focados, embora notável, em rimas alinhadas com justa métrica,

                                                           Caminhando para norte,

                                                           Caminhando para sul,

                                                           Pássaro a cantar à noite

                                                           Chama um novo dia azul.

                                                           Quero adormecer na areia

                                                           loira da praia remota

                                                           enquanto no azul vagueia

                                                           a asa de uma gaivota

mas  à que perpassa pela prosa que nos enche a alma e  aligeira o espírito. Salientar as partes poéticas do livro seria tarefa fácil se o transcrevêssemos na íntegra, tornando-se difícil quando a intenção é reduzi-las ao essencial, à concentração do belo.    Da piscadela de olho a Garcia Llorca

A las cinco de la tarde

O tempo parou na cidade, no mundo inteiro por volta das cinco horas dessa tarde fatal.

à   celebração das estrelas, dignas de hinos e cânticos,  colocando-as no céu amado do Norte e divertindo-se a deslocá-las segundo o seu humor, porque as estrelas não estão sempre no mesmo sítio nem são sempre as mesmas estrelas a acompanhar a vida dos homens, à exaltação da beleza e transparência da noite desse mesmo Norte que vem muito limpa e tem um brilho e um ardor especiais… num… céu brilhante por cima dos telhados, ao êxtase de dormir ao relento durante a viagem debaixo de um incrível céu azul-escuro pontilhado por miríades de estrelas. Tanta estrela ! Há estrelas que caem !  Talvez no mar… talvez no mar!

Cansei os braços a pendurar estrelas no céu.

Também o tempo é objecto do talento poético da autora que usa imagens de uma beleza depurada e absoluta: A ventania do tempo fez com que as suas vidas rodopiassem num remoinho veloz, como acontece com toda a gente, ou a quase lengalenga, o tempo vai andando, caminhando por cima de tudo e de toda a gente, umas vezes o tempo caminha, outras vezes o tempo dança, outras vezes o tempo cansa, outras vezes o tempo pisa, calca, amolga;

Sobe que sobe, sobe a calçada.

Truca, truca, truca, truca.

ou referindo acções situadas no arco das horas do dia, de manhã tão cedo que os fumos da madrugada ainda se enrolavam nos tornozelos de quem andasse na estrada, ou ao cair da tarde visto toda a aldeia estar já perfumada com o cheiro especial das ramadas de alecrim que iam estalando nas lareiras, ou ainda  no fim de cada dia: A doce claridade da lua estendeu-se por toda a cidade, por cima das águas, avançou e desfez-se no dia, como as ondas se desfazem no mar.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a névoa da manhã à névoa do outro dia

Não podia o amado gato deixar de inspirar, também ele,  belas imagens perfeitamente cadenciadas numa fascinante rítmica poética  , fingem que não vêem, fingem que não ouvem, fingem que não querem…sabem mas não dizem o que sabem…existem muito para além de nós.

 

Inútil definir este animal aflito.

A festa que libertava todos do trabalho uma vez por ano foi, também essa, descrita em ladaínha de alegre compasso, já que a festa é ritmo, é alegria,  é liberdade e os camponeses não iam para o campo, os ferreiros não malhavam o ferro, os alfaiates não cosiam nem cortavam, os cozinheiros não cozinhavam, os bebés não choravam, os pais não ralhavam, todos pareciam contentes, todos se sentiam amigos uns dos outros…

das bigornas dos ferreiros,…das serras dos serralheiros,…todas, à uma, bailemos,

O sonho, e as visões que o acompanham, não podia também deixar de levar a pena ligeira da autora a deslizar suavemente sobre o papel para nele deixar o sinal da verdadeira poesia. Como quando lá ao longe, cheirava a mar, cheirava a ervas do mar, cheirava a conchas do mar, cheirava ao pó das águas… viu então ao largo nos intervalos das ondas, a ir e a vir, a subir e a descer, milhares, milhões de cabeças de mulher de longos cabelos brilhantes, e viu também, como Anders contava ao pássaro,  sair de entre esta multidão/cardume de sereias um corpo nu de mulher, uma mulher nova, o rosto redondo e belo como ele nunca tinha visto nenhum e dos olhos desse rosto nasciam gotas de água.

Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida

A morte e o fogo

Outro tema, este menos presente e premente, mas constante, paira sobre a nossa história lembrando os leitores que a nossa espécie vai nascendo e vai morrendo, sendo esta circunstância natural.

Combustar-se é o seu próprio desafogo.

Assim, o velho Anders, peão condenado a retirar-se do carrossel da existência para dar lugar aos que vieram depois cumprindo o renovamento cósmico ordenado por Aquele que tudo sabe e pode, sentiu que o tempo para outra aventura, outra grande e misteriosa aventura está a chegar.  Já sem a mulher, cuja lembrança lhe vinha à memória pelo amor que eu sentia por Eloísa e do desejo maior de a ter só para mim, e por todas as rotinas da sua casa, sabia que a sua hora se aproximava. Virão certamente, outras auroras nas pessoas dos nossos descendentes. Quando ela chegou, Agnetta gritou-lhe, abanou-o, falou com ele, chorou-lhe em cima e as suas lágrimas ensoparam-lhe a camisa.

As lágrimas são as minhas mas o choro não é meu

corpo impróprio e cada vez mais frio. Gelado. Morto. Nenhum bufo pia sem motivo. Era muito triste ouvi-lo.

 

Mortes inaturais e prematuras são obra do fogo que envolve os troncos das árvores, dos pinheiros, dos carvalhos e das faias…por elas subia e tudo à volta estalava e ardia e rangia e morria. Ao longe ouviam-se os lobos que uivavam todos juntos tentando salvar-se.

irmãos do fogo e das brasas.

 

Igualmente prematura, mas mais traumática, porque se abateu brutal sobre um símbolo, foi a morte do Vasa, humilhado pelo sopro forte do vento e arrastando para o negro fundo das águas vidas ainda não prontas para deixarem de ser

essa coisa inevitável que é a vida

Enquanto Eloísa e Anders renascem em Agnetta e Elvis e Camila e Cássia, e continuam a existir embora com outros corpos, outros rostos, outras roupas, outros hábitos,  o gato do Vasa em todos os gatos do mundo, os lobos nos outros lobos, os coelhos nos outros coelhos, as doninhas nas outras doninhas, os esquilos nos outros esquilos e as raposas nas outras raposas, o Vasa é o único a ressuscitar, não ao terceiro dia mas ao tricentésimo trigésimo terceiro ano, para gáudio dos milhões de pessoas que já o viram desde o seu ressurgir.  Morte, ressurreição e ascensão.

Oh quem pudesse partir e um dia ressuscitar !

Erotismo

Uma das facetas que mais intrigaram a minha leitura foi a forma contida, delicada, sacra, quase distraída, com que a autora aflora o tema do amor físico, carnal, entre os dois jovens protagonistas que apaixonados se unem aqui em Uppsala e fazem as mais ternas promessas de amor. Para chegarem a esta união há toda uma série de etapas que não podem ser queimadas, e dentro delas rituais incontornáveis que têm de ser respeitados. Primeiro conhecem-se, depois têm de se achar bonitos, têm de conversar, têm de dar as mãos , têm de se tocar, têm de se encostar, têm de se beijar; os seus olhares têm de se afastar e de se cruzar,  de se afastar e de se cruzar até ficarem irremediavelmente perdidos e presos um no outro.  Quando Agnetta se sentiu atraída pelo rapaz o seu sorriso  foi amplo, aberto e luminoso…e o seu corpo louro estremeceu… e também o corpo dele estremeceu…e deu… três passos… para chegar perto, muito perto do contorno do corpo dela, ela recuou primeiro e depois, confiante, avançou também três passos e foi o suficiente para se encostarem, para se encontrarem.

Mas num dia que os seus olhos se encontraram de um certo modo,

                             sentiram nos seus corpos um estremecimento antigo

O máximo da ousadia que a autora se permite é quase uma descrição digna dos êxtases de Sta. Teresa que imaginamos de joelhos diante da imagem do seu amado Esposo e dos seus olhos têm de sair relâmpagos de todas as cores de cada vez que se olham; dos seus lábios entreabertos têm de sair línguas de fogo como as auroras boreais; os seus corpos têm de estremecer ainda que estejam distanciados um do outro;…dos seus pensamentos esvoaçarão em todas as direcções momentos de paixão…

E no dia feliz que Elvis e Agnetta escolheram para acasalar, nesse dia, ele fez como todos os  homens que  fornecem as mulheres do seu próprio ser para que a espécie nunca acabe.

Quando, incautos,  pensamos que tudo o que tem a ver com o tema está nestas poucas passagens que não fazem subir a temperatura para além dos 36,5 Celsius da normalidade, eis que a prosa se inflama e, camuflada em cenas em nada relacionadas com o sexo, a autora mostra de maneira, diria,  desenfreada se não temesse ofender o seu recato e pudor, aquilo que reprimiu ao contar o amor entre os nossos heróis e faz-nos sentir coisas indefiníveis, escorregadias, que me tocavam, que entravam por baixo das roupas e, suavemente, me roçavam as pernas e as coxas e me afagavam a barriga e desapareciam, e descreve uma frase de Agnetta para Elvis que, manipulada à maneira do jornalismo político da nossa terra poderia parecer ter um outro sentido: Tens de sentir o calor, o ardor intenso chegar-te ao umbigo….quente irá descer pelo teu corpo, não sei por onde, que caminho interior levará, mas sei que tens de a sentir no umbigo.

Das páginas de “O Amante de Lady Chatterley” poderia ter saído a descrição do despertar inopinado de um sono, não fora um urso a fazer de despertador: Estava eu a dormitar num sono superficial quando senti um roçar quente, áspero mas ao mesmo tempo macio, inexplicável, um roçagar curioso, um aconchego indefinível e um bafo de calor apertou-me a base do pescoço, uma língua viscosa percorreu toda a minha cara e um sopro de humidade quente humedeceu-me a testa rente ao nascer do cabelo. Abri as pálpebras e pensei que estava no meio de um sonho, apesar de estar com os olhos já bem abertos….

Beijei-lhe o focinho ardente, mordisquei-lhe o corpo nu.

Mesmo numa história maravilhosa para todas as idades,  tinha de encontrar forma de fazer descer o leitor a níveis muito abaixo do coração, esperando que ninguém me queira mal se li tudo neste livro, até aquilo que, embora nele expresso, a autora não teve  intenção de escrever. Ou teve ?

Numa janela aberta ao sol um sexo canta, e o seu canto, no ar, é uma flecha embandeirada.

Neo-realismo

Convivendo com a poesia e interpenetrando-a, o quotidiano, a crueza e o realismo de certas descrições vêm-nos lembrar que não estamos nas nuvens e que nem tudo é perfeito debaixo do céu branco do norte, começando pela indigestão do Elvis, que lhe provocou as cólicas e as dores de barriga que o fizeram contorcer e gritar de dores: – Aiiiiii! Que dor!  e sobretudo fazer uma triste figura mesmo no dia em que conheceu aquela com quem havia de casar.  Nenhum homem sonha ter uma caganeira no momento do engate !  Mas a autora resvala para o escatológico com a cena circense das nozes engolidas e defecadas inteiras, a qual, junto com a bosta de rena usada na construção das cabanas, empresta à narrativa novos aromas fortes e insuspeitáveis.

No meio do sonho de ver o Vasa e do entusiasmo que a perspectiva de nele embarcar lhes provocou: «Acho essa ideia maravilhosa, não achas, Elvis? Já imaginaste entrar no Vasa no dia da sua primeira viagem, no mar verdadeiro, pelo meio das ilhas? Seria um sonho! Seria mais do que poderíamos pedir, imaginar!…», descemos à terra com o realismo trágico e sórdido da vida dos marinheiros a bordo. Tudo o que se podia esperar da vida dentro de um barco era a doença, o sofrimento, a perda e a dor….o frio; as agonias diárias; os ferimentos em cura, sem tratamento; os homens que comiam, dez de cada vez, pela mesma gamela como os cães comem; os incêndios inesperados;  os castigos terríveis, enforcamentos, facadas, o despejar dos homens amurada fora, os homens pendurados pelos pés por uma corda grossa e a sua cabeça a entrar e a sair de dentro da água gelada do mar;… a troco de algumas papas de cevada e dumas sopas de feijão ou de ervilhas cozidas e algum pão e também da dormida sob o tecto seguro dum tombadilho, aos trabalhos mais duros, ao encontro corpo a corpo com uma terrível tempestade, ao frio intenso que se fazia sentir à noite no coração do mar alto e, sobretudo, à possibilidade de encarar uma guerra que não tinham desejado.

Quero o sofrimento todo. Quero senti-lo, e vencê-lo.

Não pôde a autora deixar de notar a diferença entre a desgraçada vida dos marinheiros do Vasa, e de todos os barcos do mundo, com aquela dos mandantes do navio que viviam e comiam e bebiam da melhor maneira possível. Os seus aposentos eram iguaizinhos a um amplo e rico salão dum palácio da cidade; havia beliches e bancos e uma grande mesa onde o comandante e os seus convidados comiam refeições de carne, de peixe fumado, de misturas de cereais e pão escuro. Bebia-se um rico espumante.

Vergonha de me explorarem,…de me comprarem, de me venderem.

Outros mundos para além do nosso

Minha aldeia é todo o mundo. Todo o mundo me pertence.

De Kiruna, onde é sempre dia, e o sol não chega a esconder-se, a Uppsala, de Uppsala, terra de raparigas muitíssimo bonitas, a Estocolmo, de Estocolmo, com o seu céu branco e onde tudo era realmente estranho, para todo o mundo, o Vasa procura outros mares e outros portos, outras paragens e outras paisagens, outros costumes e outras culturas, outras gentes e outros hábitos.  Nem melhores nem piores; diferentes. Agora sei que existem outras vidas, outras maneiras de viver, outro ambiente, outra paisagem, sei que há outros segredos; ao olhar para estas águas, para este grande lago, para o mar ali ao longe, sinto que há segredos, mistérios, que não sou só eu, nem só tu, nem só o gato, nem somente aquelas mulheres, nem apenas aqueles homens; que o céu daqui é diferente do nosso, que o ar é outro, que a cor dos dias é outra e que para além, muito mais para além deste horizonte do lago e do próximo mar que os meus olhos vêem, existe mais qualquer coisa e penso nisso e esse pensamento faz com que outros pensamentos me venham à cabeça. E se houver mais mar e mais lagos e mais barcos e mais gente diferente desta e se o céu branco de Estocolmo não acabar, como parece que acaba, ali no fundo, na outra margem, perto das dunas?   Não estamos sozinhos no mundo, é o que quero dizer. 

                                                           Fecho os olhos por instantes.

                                                           Abro os olhos novamente.

                                                           Neste abrir e fechar de olhos

                                                           já todo o mundo é diferente.

Magnífico manifesto  de abertura ao mundo e de anti-racismo, panfleto subversivo que prega o respeito (detesto a tolerância; quem se diz tolerante anuncia a sua superioridade)  pelo próximo, dazibao que incita a abraçar toda a humanidade – cada mulher, cada homem, cada criança – na sua magnífica diversidade que, se nos faz franzir o sobrolho e nos provoca pele de galinha no primeiro contacto, nos enriquece pelo simples facto de nos vermos, de nos tocarmos, de nos ouvirmos, de nos escutarmos, de nos darmos e recebermos sem juros nem hipotecas. Aceitar os outros como eles são sem ter a veleidade de fazer depender essa aceitação de análises às lágrimas dos negros,

nem sinais de negro, nem vestígios de ódio

ao suor dos ucranianos, ao sangue dos ciganos, à saliva dos chineses, à linfa dos islâmicos, à urina dos brasileiros ou ao esperma dos homo e transexuais.  Aquilo que dermos aos outros será nosso para sempre.

                                          Eu sei que a humanidade é mais gente do que eu,

    sei que o mundo é maior do que o bairro onde habito,

O Vasa

 É o nosso orgulho!» …Quem se atreverá a enfrentar o nosso orgulho?»

Elevemos por fim os nossos hinos de louvor ao Vasa, totem do amor à Pátria e segundo protagonista da nossa história, só superado pelo gato, alfa e ómega da trama descritiva e catalizador indispensável às reacções químicas que regem as emoções que a autora nos faz sentir. Vasa! Oh, grande e poderoso Vasa!  O mais famoso e formoso navio, o Vasa…o desejado navio Vasa…o belo navio Vasa… um grande navio, um lindo e poderoso navio, esse lindo navio que inventámos no nosso pensamento mas que existe,

barco de proa festiva

este símbolo do poderio do amado país em guerra, o qual, como uma aparição, fazia ajoelhar os devotos embasbacados admiradores e atraía multidões só para o verem imponente zarpar, gritando «Sverige, Sverige!». Uma salva de tiros foi lançada de cada um dos seus sessenta e quatro canhões; o magnífico e imenso Vasa…arvorava orgulhoso a bandeira azul com a cruz amarela e as três coroas douradas,

As cores são as bandeiras;

outros símbolos da pátria que, à sua semelhança, o tornavam invencível,  um verdadeiro navio real. Oh, meu poderoso Vasa! Solta as velas, abre as asas! De repente,…uma rajada de vento soprou com violência…o Vasa balouçou. Imperfeito…inclinou-se sobre o seu costado esquerdo e desapareceu nas águas calmas do porto de Estocolmo.

e as forças da Natureza nunca ninguém as venceu.

A angústia. O medo. A assombração. Ninguém saiu da frente do mar, da frente da morte. Do impossível.

A água é negra, o céu é negro, cor de basalto.

                                              Tudo silêncio, tudo tristeza, tudo mistério.

Mas os símbolos não morrem e a Suécia continua para além do Vasa, ele mesmo ressurgido em todo o seu esplendor 333 anos depois, as crianças a sonhar, as mulheres a conversar, os homens a beber,… todos, todos sem excepção a aguardar novos sinais de partida e, apoiados nos velhos símbolos, novos motivos de orgulho.

Não há poder que me vença.

Mesmo morto hei-de passar.

 

Gatos

O nosso gato sem nome entra prepotente, por direito próprio, no Livro de Horas dos gatos célebres que pontificam na literatura, no cinema, na música, na escultura, na pintura e até na física. Por singular coincidência, estando a começar estas linhas com a televisão sintonizada como habitualmente na RAI 1, apareceu Licia Colò,  apresentadora de programas sobre animais e viagens que conheço por me ter convidado no século passado para intervir num seu programa sobre os Açores, a apresentar o seu novo trabalho literário “L’ottava vita” precisamente sobre gatos, tal como o  anterior que intitulou “Cuore di gatta”.

Falando de gatos não poderia deixar de fazer uma homenagem ao Réglisse – Sófia 1975 – Bracciano 1992 – gato branco contrariamente ao que o seu nome indicava, que veio para casa bebé, nos acompanhou durante 17 anos e acabou os seus dias num hotel para animais junto do Lago de Bracciano, onde ficou sepultado à sombra de um pinheiro manso.

Mas comecemos pela física por ser nesse campo que menos se esperaria a presença de um gato. Mas ele aí está o Gato de Schrödinger, paradoxal bichano que tanto pode estar vivo como morto dentro da sua caixa de aço, problema sem solução da interpretação de Copenhague da mecânica quântica na sua aplicação prática. Usem de caridade não me pedindo explicações.

No cinema o gato Tom difere essencialmente do nosso porque continuará eternamente a perseguir o ratinho Jerry sem nunca lhe dar o seu estômago como destino, o que não acontecia aos ratos, toupeiras e lagartixas que o gato de Uppsala caçava para seu sustento.  A mesma diferença o separa também do gato Silvestre, frustrado e paranóico felino com problemas de dicção, só que desta vez a vítima sempre adiada é o canarinho Piu-Piu. Nos Aristocats da Disney, a gata Duchesse e os seus três gatinhos Marie, Toulouse e Berlioz, família habituada aos salões da alta sociedade parisiense, enfrenta um mundo desconhecido onde pontifica o rufia e boémio O’Malley e todo um bando de gatos de má fama, e de todas as raças, que lhes ensinaram que há vida e amor para além das protectoras quatro paredes da nossa casa.  Garfield, o gato comilão, preguiçoso e sarcástico, alérgico a ratos e avesso às segundas-feiras, com um profundo desprezo pelo cão idiota seu parceiro de aventuras, passa a vida a trapacear quem o criou, embora lhe implore constantemente:  Alimenta-me! (melhor se com lasanha).

Na literatura citemos em primeiro lugar o nosso Fialho de Almeida que disse: Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato. Fialho escolheu o travesti do gato porque é o que se quadra mais no nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro. Quem não recorda o “Gato Preto” de Edgar Allan Poe, diabólico animal que induz e incita o protagonista ao uxoricídio, não lhe dando paz até ao inesperado desfecho da narrativa que nos mantém em pulgas do princípio ao fim. O Gatinho de Cheshire, louco, gordo, às riscas, com dentadura de teclado de piano, às vezes invisível, acrobata, que com um extraordinário diálogo surrealista com Alice nos abre as portas do seu país das maravilhas. “O Gato de Botas” do francês Perrault, que com a sua astúcia engana ogres e reis, acabando por levar a água ao seu moinho, na falsa identidade do Marquês de Carabas. Em “Pinóquio”, o gato forma com a raposa um duo de oportunistas aldrabões que convencem o nosso bonequinho de madeira a semear as suas moedas no Campo dos Milagres, na esperança de uma milagrosa colheita. Enganado pelos meliantes, que entretanto lhe haviam surripiado todas as moedas, queixa-se ao juiz, um gorila que condena o lesado queixoso a 4 meses de cadeia.  Como este episódio se assemelha a situações hoje vividas em Portugal !

Na pintura o gato sempre foi frequente modelo dos artistas desde a antiguidade, do Egipto à Grécia, de Roma à Pérsia, da Índia à China. No Japão, o gato foi presença duradoura em pinturas sobre pergaminho, em louças, bronzes e marfins.  A hostilidade da igreja católica baniu o gato – símbolo da traição – das telas e frescos ocidentais, relegando-o aos pés de Judas Iscariotes em inúmeras versões da “Última Ceia”. Hieronymus Bosch pintou gatos demoníacos em diversas obras, entre as quais “As Tentações de St. Antão” que podemos admirar nas Janelas Verdes. Outros grandes da pintura como Hogarth, Gottfried Mind, Steilen (pai de Collette e como ela apaixonado por gatos), Manet, Renoir, Paul Klee e Picasso retrataram o misterioso felino nosso companheiro.

Falando de escultura, o enorme gato gordo de Botero é hoje inseparável da Rambla del Raval e provocaria ciúmes a Gaudi e Miró, que não veriam com bons olhos esta invasão artística da sua cidade. Os gatos egípcios, persas, indianos, chineses e japoneses, esculpidos como imagem do poder, eram a encarnação da sua verdadeira natureza.

Finalmente na música, o musical “Cats” de Lloyd Webber, estreado em 1981, e desde então sempre em cena em todos os palcos do mundo, com versões em 20 línguas, ganhou todos os prémios possíveis e bateu todos os records de audiência na história da música. Baseado no livro de T.S.Elliot  “Old Possum’s Book of Pratical Cats” que mais não é que uma visão metafórica da humanidade, apresentando os gatos protagonistas como arquétipos humanos.

Gatos célebres acompanharam Maria Antonieta até à morte. Levados para os Estados Unidos, os seus seis gatos deram origem à  raça “Maine Coon Cat”. Winston Churchill não dispensava o seu gato preto Lord Nelson durante as reuniões do seu Ministério, sentando-o a seu lado.  Mark Twain chegou a ter 19 gatos, baptizando-os com nomes estranhíssimos: Sackcloth, Blatherskite,  Pestilence, Beelzebub, etc., mas foi Bambino, o gato da filha Clara, aquele que mais amou. Durante o cerco de Roma, na Idade Média, os romanos mataram e comeram gatos para sobreviverem: ainda hoje, agradecidos, os alimentam diariamente, aos milhares, em colónias que habitam áreas arqueológicas da Cidade Eterna.

Paro aqui para não escrever 100 páginas sobre o assunto, tantos são os amantes dos gatos e as histórias curiosas que têm como tema esse curioso binómio gato-homem.

Termino, reportando o resultado da idiotice humana, já que dos gatos não constam episódios tão estúpidos e negativos. A notícia da criação de gatos bonsai, com tanto de fotos na net mostrando gatinhos deformados dentro de boiões de vidro, revelaram-se uma blague de dúbio gosto que causou a indignação geral. Resta a dúvida se a ideia não teria ido para a frente se fosse possível realizá-la: compradores não faltariam. Já a moda da pintura artística em gatos, costume praticado na antiguidade oriental, que um restrito grupo de milionários ressuscitou para seu prazer estético e sobretudo para se distinguirem de quem não dispõe de dezenas de milhares de dólares para que artistas  transformem os seus animais de estimação em verdadeiras obras de arte.  Só a manutenção desta estúpida forma d’eppater le bourgeois custa 60 mil dólares por ano.

«Só lhe falta falar, querido gato.»

Pobres humanos,  diria o Gato de Uppsala.

Epílogo

Como sabemos que as regiões deste nosso mundo que a autora mais ama são a Escandinávia e o Oeste português, e o amor à primeira já nos foi revelado neste precioso “O gato de Uppsala”, ficamos à espera de “O gato de Quintas” como prova de amor à segunda.

Não se nasce impunemente nas praias de Portugal

Tendo frequentado ambientes diplomáticos,  habituei-me a ouvir repetir, nos discursos de despedida de Embaixadores,  a frase/rebuçado dirigida às Embaixatrizes, que não poucas vezes lhes infernizavam a existência: –  Por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher! Para o caso presente permito-me adaptar: –  Por detrás desta grande escritora há a marca de dois homens: um do alto que a guia, e outro ao lado que a inspira e encanta.

Desejo à autora que aviste uma Aurora roxa, cumprindo, como Agnetta,  o seu “Mitt Öde”.

Da angustiosa aventura tudo que fica é poesia.

para repetir muitas vezes amor,

amor,

amor.

Lisboa, 22 de Julho de 2009

Notas para o leitor:

Nesta cor versos de António Gedeão

– Nesta cor excertos do livro

– Outras citações identificadas no texto

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